Claro que ela era judia — mas que tipo de judia foi Ester?
Uma reflexão sobre o Livro de Ester: identidade judaica não como herança, mas como responsabilidade que exige ação sob risco e ambiguidade.
2/27/20264 min read


Claro que ela era judia — mas que tipo de judia foi Ester?
O Livro de Ester coloca uma pergunta que a vida judaica continua a evitar.
Claro que Ester era judia. O texto nos diz isso. Mordecai, seu primo e tutor, nos diz isso. A história a recorda assim.
Mas essa não é a verdadeira pergunta.
A verdadeira pergunta é: que tipo de existência judaica ela encarnou?
O Livro de Ester é o único livro bíblico em que o nome de Deus não aparece. Essa ausência não é decorativa. É estrutural. O mundo de Ester é um mundo em que a voz divina está silenciosa, os milagres são invisíveis e a política determina a sobrevivência.
É, em outras palavras, reconhecidamente moderno.
Ester vive não em Jerusalém, mas em Susã, a capital real do Império Persa (a atual Susa, no Irã). Sua identidade judaica não é publicamente visível. É deliberadamente ocultada. Mordecai a instrui a não revelar sua origem. Esse ocultamento não é fraqueza. É estratégia. É a sabedoria duramente adquirida da vida judaica no exílio.
Quando Hamã, o oficial real que arquitetou o plano para destruir os judeus, decreta sua aniquilação, a crise que Ester enfrenta não é teológica, mas existencial. Mordecai não pergunta sobre sua fé; ele quer saber o que ela fará.
A crise de Ester não é se ela é judia. É se permitirá que sua condição judaica se torne consequente.
Há uma diferença.
A identidade judaica pode existir como herança, memória, cultura, até mesmo como convicção privada. Nada disso gera automaticamente ação. O Livro de Ester nos força a uma constatação mais desconfortável: a identidade só se torna real quando é colocada em risco.
Ester aproxima-se do rei sem ser convocada — um ato punível com a morte. Ela entra na esfera política não como ornamento, mas como agente. Não invoca milagres. Organiza banquetes. Calcula o momento. Lê o poder. Move-se dentro das estruturas disponíveis.
O Livro não oferece intervenção divina para justificar seu risco. Não há confirmação celestial. Apenas incerteza. Ester precisa decidir antes que a história lhe garanta o sucesso.
Essa é a arquitetura moral do texto. O drama não é entre fé e dúvida. É entre segurança e responsabilidade.
A vida judaica moderna frequentemente prefere falar de identidade em termos declarativos: continuidade, pertencimento, orgulho, sobrevivência. São categorias importantes. Mas não suficientes. Ester ensina que a existência judaica é testada não quando o pertencimento é afirmado, mas quando o silêncio se torna cumplicidade.
Ela poderia ter permanecido escondida. Poderia ter imaginado que a proximidade do palácio a protegeria do destino coletivo. A advertência de Mordecai desmonta essa ilusão: “Não imagines que escaparás só porque estás no palácio.” A história não respeita arranjos privados. A ilusão de uma excepcionalidade protegida é uma das tentações recorrentes da vida na diáspora. A história de Ester a desfaz.
E, no entanto, o livro é sutil. Ester não se transforma numa rebelde profética. Não denuncia o império. Trabalha dentro dele. Oferece banquetes. Constrói um teatro político. Expõe Hamã não por agitação pública, mas por uma revelação cuidadosamente encenada. Isso não é política revolucionária. É engajamento inteligente sob restrição.
O Livro de Ester, portanto, recusa dois modelos fáceis da vida judaica: o retraimento e o triunfalismo.
O retraimento teria significado silêncio. O triunfalismo teria significado confronto aberto, desligado de qualquer cálculo realista. Ester não escolhe nenhum dos dois. Encarnou um terceiro modelo: responsabilidade exercida a partir de condições imperfeitas.
É por isso que a ausência do nome de Deus importa. O livro não oferece consolo teológico. Oferece um retrato da agência humana em meio à ambiguidade.
O silêncio de Deus não elimina a responsabilidade. Ele a intensifica.
Nos relatos bíblicos em que há milagres, a ação segue a revelação. Em Ester, a ação precede a clareza. O ser humano deve mover-se antes que a certeza metafísica apareça. Essa inversão define a existência moral moderna.
Vivemos num mundo saturado de poder, mas privado de transcendência visível. As decisões são tomadas em parlamentos, tribunais, ecossistemas midiáticos, conselhos administrativos. A intervenção divina não é estratégia política. Nesse mundo, a identidade judaica não pode depender de resgate sobrenatural. Deve depender de coragem moral exercida com inteligência.
A coragem de Ester não é ruidosa. É disciplinada. Ela jejua. Prepara-se. Escolhe o momento. Cria as condições para que a verdade venha à tona sem destruir sua margem de ação. O Livro de Ester rejeita tanto a passividade quanto o heroísmo impulsivo.
Propõe, em vez disso, que a responsabilidade judaica se mede pela disposição de arriscar posição em favor da sobrevivência coletiva — sem garantias e sem espetáculo.
Essa é a pergunta que o Livro nos deixa.
Não: você é judeu?
Mas: quando sua condição judaica exige ação?
Ester não redime o sistema. Ela o navega.
Essa distinção importa. Ao longo dos séculos, a existência judaica raramente se desenvolveu sob soberania ideal. Exigiu negociação, prudência, alfabetização política e momentos de exposição decisiva.
Claro que Ester era judia. Mas tornou-se plenamente judia quando permitiu que esse fato moldasse a história.
O Livro de Ester oferece, assim, uma percepção sóbria: identidade por si só não salva. Tampouco a piedade desconectada do poder. A sobrevivência exige inteligência, coragem e prontidão para agir antes da certeza.
A grandeza de Ester não está em sua beleza nem em sua proximidade ao poder. Está na recusa de transformar segurança em desculpa.
Ela dá um passo à frente não porque conhece o desfecho, mas porque reconhece o momento.
A história se move quando alguém se recusa a permanecer escondido.
Esse é o desafio permanente de Ester.
E continua sendo o nosso.

