Entre a liderança que concentra o destino e a que devolve responsabilidade à sociedade.
Análise comparativa entre Netanyahu e Bennett como dois modelos opostos de liderança democrática em Israel. Um estudo sobre carisma, responsabilidade política e resiliência institucional sob pressão permanente. A série não pretende avaliar estratégias de campanha nem acompanhar a oscilação das pesquisas. Ela parte de uma pergunta mais profunda — e mais incômoda: que tipo de liderança a sociedade israelense está buscando hoje — e por quê?
Moshe Pitchon
2/26/20263 min read
Comunicación efectiva siempre.


Após mais de uma década de instabilidade política, eleições repetidas e crescente desgaste cívico, a vida pública israelense continua amplamente organizada em torno de uma figura dominante: Benjamin Netanyahu. A dificuldade de articular uma alternativa convincente não é apenas eleitoral; é também conceitual. Nesse contexto, o renovado interesse por Bennett importa menos como dado aritmético e mais como sintoma: ele permite observar dois modelos distintos de liderança, responsabilidade e autoridade democrática sob condições de pressão permanente.
A política israelense dos últimos anos pode ser lida como uma confrontação prolongada entre dois estilos de liderança, encarnados com particular nitidez por Netanyahu e Bennett. Essa confrontação costuma ser descrita em termos ideológicos ou pessoais. Contudo, em um nível mais profundo, ela expressa duas formas radicalmente diferentes de compreender como a responsabilidade se distribui em uma democracia submetida a tensão existencial.
O modelo de Netanyahu apoia-se em uma forma intensa de carisma político. Ele se constrói a partir do domínio da narrativa, de uma autopercepção de missão histórica e da projeção de indispensabilidade. Com o tempo, esse carisma passou a funcionar como força de atração: o sentido político, a ansiedade pela segurança e até o juízo moral tendem a concentrar-se na figura do líder. Seus apoiadores não respaldam apenas políticas específicas; depositam em Netanyahu a confiança de quem acredita que uma única pessoa carrega o destino nacional.
Aqui surge a paradoxal consequência. Quanto mais forte e decisivo parece o líder, mais a responsabilidade se afasta das instituições e dos cidadãos. A crítica deixa de ser exercício democrático e adquire tonalidade existencial. A prestação de contas se personaliza. A política deixa de ser debate sobre decisões para tornar-se um plebiscito permanente de lealdades.
O modelo de Netanyahu oferece segurança emocional em um ambiente percebido como hostil. Mas o faz a um custo elevado: a responsabilidade se concentra e, por isso mesmo, torna-se frágil.
Bennett representa quase o impulso oposto. Seu estilo de liderança é deliberadamente não messiânico. É mais gerencial do que mítico, mais pragmático do que simbólico, mais orientado à construção de coalizões do que à polarização. Bennett não busca absorver a ansiedade nacional em sua figura. Procura, ao contrário — nem sempre com êxito ou brilho retórico — devolver a responsabilidade às instituições, aos acordos políticos e aos procedimentos democráticos.
Por isso, é frequentemente percebido como alguém sem carisma. Essa leitura, porém, é enganosa. O que se apresenta como “falta de carisma” é, na verdade, uma recusa consciente de atuar como substituto moral da sociedade. Sua fraqueza está na visibilidade política. Sua força é menos espetacular, porém mais duradoura: uma arquitetura ética do poder.
O renovado interesse por Bennett e os dados recentes de opinião não se explicam apenas pelo cansaço em relação a Netanyahu. Eles sinalizam algo mais profundo: um desconforto crescente com a hiperpersonalização da responsabilidade política.
Após anos de paralisia, eleições reiteradas e desgaste moral provocado pela gestão contínua de crises, muitos israelenses já não perguntam quem pode salvá-los. Perguntam, antes, se é possível governar sem precisar acreditar em um salvador. O retorno de Bennett conecta-se precisamente a essa pergunta ainda implícita.
Sob uma perspectiva judaica, o contraste entre esses dois modelos é particularmente significativo. O judaísmo não rejeita liderança forte — Moisés foi figura decisiva —, mas jamais permitiu que a liderança substituísse a agência moral coletiva. A aliança não é delegada a um rei; ela se dirige a um povo. Hineni — “aqui estou, assumo a responsabilidade” — não pode ser pronunciado em nome de outro.
O carisma de Netanyahu corre o risco de transformar-se em uma forma de consciência delegada. A contenção de Bennett busca, de modo imperfeito mas deliberado, preservar uma cultura política na qual a responsabilidade continue distribuída, debatida e humana.
A divisão política em Israel, portanto, não se reduz a direita e esquerda, nem a segurança versus diplomacia. Ela se situa em outro plano: entre uma política que concentra sentido e responsabilidade em uma única figura e outra que aceita o desconforto de uma liderança menos tranquilizadora para manter os cidadãos moralmente implicados.
Em uma sociedade submetida a pressão constante, a tentação de escolher a primeira opção é enorme. Mas a resiliência democrática de Israel pode depender, precisamente, da segunda.

