Lendo Rute: Lealdade, Compaixão e a Ética de Shavuot

Uma leitura contemporânea do Livro de Rute como meditação sobre lealdade, compaixão, dignidade humana e responsabilidade moral durante Shavuot.

COMENTÁRIO BÍBLICO

Rabino Moshe Pitchon

5/9/20262 min read

Shavuot, a “Festa das Semanas”, surgiu nos tempos bíblicos para marcar o fim da colheita dos cereais. Com o trigo e a cevada já recolhidos, chegava o momento da gratidão e da celebração.

Isso se expressava principalmente por meio da oferta das primícias no Templo de Jerusalém — um reconhecimento simbólico de que os frutos da terra não pertencem, em última instância, ao agricultor que a trabalha, mas a Deus, que está ao lado dos estrangeiros, das viúvas, dos órfãos, dos pobres e dos marginalizados.

Esse é um dos pilares sobre os quais o judaísmo foi construído: a ideia de que tudo o que o ser humano possui lhe é confiado apenas temporariamente, para ser usado no fortalecimento da vida, no auxílio aos necessitados e na construção de um mundo melhor para as gerações futuras.

As leis que ordenavam aos agricultores deixar as espigas caídas, os feixes esquecidos e os cantos do campo para os pobres faziam parte de um antigo sistema de amparo social fundamentado na dignidade, e não na caridade.

Após a destruição do Templo, os sábios do judaísmo rabínico encontraram na leitura do Livro de Rute durante Shavuot uma lembrança duradoura da visão ética associada à época da colheita.

Refletindo sobre o motivo pelo qual o livro foi escrito, os rabinos observaram que ele não contém leis de pureza ou impureza, nem discussões sobre o que é permitido ou proibido, mas foi escrito para ensinar que grande é a recompensa daqueles que se distinguem por atos de compaixão e amor.

Pode-se dizer que o Livro de Rute é dedicado, ao menos em parte, à construção de uma ética que conclama as pessoas a contribuir para o florescimento humano, permanecendo ao lado daqueles que vivem realidades difíceis de deslocamento e encontro entre culturas.

Rute responde à pergunta sobre se a pertença a Israel estaria limitada apenas aos israelitas étnicos com um claro “não”, ao escolher como heroína mais improvável uma mulher oriunda de um povo que, para Israel, representava traição, perversão e destruição.

Ainda assim, Rute entra em Israel compreendendo que está se unindo a um povo ligado por uma aliança de lealdade e responsabilidade mútuas. O livro apresenta Israel não como uma tribo étnica fechada, mas como uma comunidade de aliança capaz de se abrir ao estrangeiro que renuncia à hostilidade e escolhe a solidariedade com seu povo e seu destino.

O Livro de Rute nos recorda que o povo de Israel é chamado a permanecer em amizade e apoio concreto ao lado de todos aqueles que foram deslocados, especialmente os que sofreram os traumas da fome, da violência e da guerra.

Rute seria apenas uma narrativa rural ficcional se não confrontasse diretamente a ideia de que a solidariedade judaica representa não valores universais, mas apenas uma lealdade tribal.

Ao contrário, o livro permanece como arte literária e reflexão teológica em seu mais alto nível: uma meditação silenciosa, mas profunda, sobre lealdade, responsabilidade, dignidade humana e a possibilidade de que a compaixão supere as fronteiras criadas pela história e pelo medo.